De olho na Cena #1: Entrevista com Sara Não Tem Nome

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Sábado nublado na capital mineira. O barulho dos carros, o ambiente movimentado e o dia cinza criam a atmosfera perfeita para a romantização indigesta da cidade grande. Drummond já observava as peças que formavam a cidade e a vida e se questionou em um de seus poemas: ‘’A vida parou ou foi o automóvel?’’

Os olhos mineiros parecem ter sido educados à observação do mundo. Quem lê Drummond sabe. Porém, é outra artista mineira que esperávamos – que também possui singela sensibilidade e capta nuances do caos urbano -. Seu nome é Sara Braga. Cantora, atriz, artista visual e conhecida pelo pseudônimo “Sara Não Tem Nome”, a jovem nascida em Contagem estreou na música em 2015 com o elogiadíssimo Ômega III, na qual relata a sua problemática relação com a cidade natal e as angústias existenciais de seu espírito deslocado. Envolto por uma dose de niilismo, consciência social e concebido pelo penetrante timbre da cantora.

De cara, dava para notar que o mito do mineiro simples e tranquilo se presenciava em Sara. A moça, muito adepta das redes sociais, respondeu ao nosso contato de maneira rápida e três dias depois estávamos sentados na grama do jardim municipal de BH, prontos para o que seria a primeira entrevista do Virgula Sonora com um artista da cena independente. Câmera e entrevistadores apostos, Sara logo confessa que a sua alcunha surgira pelo efeito destrutivo da metrópole sobre as individualidades pessoais e ainda completa: “as pessoas tem dificuldade de usar o artigo ‘a’ antes de Sara Não Tem Nome, falam “O Sara Não Tem Nome” e pensam que sou trans. Acho divertido, porque hoje em dia tá tudo invertido mesmo esse negócio de gênero. Ninguém tem mais nada”.

Depois de mais ou menos meia hora, a entrevista acaba e todos que estavam ali percebem a grande peculiaridade dela: calças e short sujos de lama. Onde já se viu, uma entrevista em que entrevistado e entrevistadores estão sentados num gramado que horas antes fora agraciado com um temporal típico da primavera mineira? Contudo, a graça para por aí. A entrevista inicialmente estava marcada para ocorrer no Palácio das Artes, que foi inviabilizada pela falta de permissão do centro de produção para a realização dessa prosa filmada. Segundo Sara, a recusa se dera pelo fato do espaço estar sofrendo com protestos capitaneados pela ala moralista dos vereadores da cidade, o que provocou certo receio com câmeras trazidas pelos visitantes do local. De qualquer forma, a perseguição aos artistas e às exposições de arte também chegara de forma avassaladora na capital mineira.

É pensando na urgência de discutir esses assuntos que procuramos Sara. Uma típica representante da cena para nos ajudar a refletir sobre o quadro atual do cenário de arte alternativa feita no Brasil, principalmente em Belo Horizonte e intermediações. Se você gosta de artistas que não estão no mainstream ou é um artista da cena local que não está no mainstream. Ou se você apenas não conhece, não fazendo parte de nenhum desses dois grupos, vale a pena dar uma conferida no vídeo:

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